sábado, 11 de outubro de 2008

Extra! Extra! Estado de sítio em Simandou


Como você pode imaginar, o desemprego na Guiné tem níveis elevados. A falta de ofertas de emprego faz com que o Projeto Simandou se torne um grande atrativo demográfico: pessoas de todo o país, e até de países vizinhos, se mudam para Moribadougou - a vila mais próxima do projeto - em busca de possibilidade de emprego.

Quando chegam aqui, essas pessoas devem se submeter aos representantes da Comunidade e fazer sua inscrição nesse órgão para que possam ser encaminhadas a um emprego. É impressionante como a Comunidade tem poder aqui; praticamente são eles que decidem quem vai trabalhar onde (aqui existem várias empresas prestando serviço para a Rio Tinto; quando uma delas precisa de funcionários locais, deve anunciar na Comunidade). E tenho fortes razões para acreditar que quem paga mais, fica com os melhores empregos, ou seja, a Comunidade é (mais) um órgão corrupto que existe para tirar dinheiro do povo.

Assim que cheguei em Canga East, a empresa para a qual estou trabalhando precisava contratar funcionários. Fomos em busca de informações para saber quais os procedimentos para tal, e nunca nos foi informada a existência da tal Comunidade. Fizemos a contratação de 11 pessoas por nossa conta. No dia seguinte, a Comunidade nos procurou - de maneira ameaçadora - e nos obrigou a cancelar as contratações e fazer nova seleção de pessoal através dela. Sem querer criar atrito, foi o que fizemos.

Dispensamos os onze "funcionários", fizemos todo o processo de seleção novamente, e contratamos outras onze pessoas através da Comunidade, ou seja, supostamente fizemos o processo correto dessa vez.

Entretanto, no dia seguinte fomos procurados por representantes da Comunidade de Beyla, uma cidade próxima, relativamente grande - pelo menos para os padrões da Guiné. Eles disseram que ficaram sabendo das contratações e que tinham um acordo com a Comunidade de Moribadougou: 60% de todas as pessoas contratadas no projeto devem ser de Beyla e 40% de Moribadougou. Eles estavam reclamando que esse acordo não havia sido cumprido.

Eu respondi que isso nunca nos foi informado e que a Comunidade é que tem que olhar isso, não a empresa contratante. Para nós, pouco importa se o funcionário é de Beyla ou de Moribadougou ou de qualquer outro lugar. Sugeri, ainda, que eles procurassem a Comunidade de Moribadougou e resolvessem essa questão diretamente com eles, mas descartei a possibilidade de uma nova contratação, já que havíamos feito o processo corretamente.

Primeira notícia no dia seguinte: três carros da Rio Tinto foram atacados e incendiados em Beyla por causa da insatisfação popular gerada pelas contratações. O exército da Guiné foi mobilizado. Representantes dos governos regional e nacional vieram até Beyla. Os vôos de Canga East até Conacri foram cancelados (Beyla fica no meio do caminho para o aeroporto), atrasando compromissos e férias de várias pessoas. Os moradores de Beyla ameaçaram impedir a passagem de veículos para abastecer o acampamento, inclusive alimentação.

Isso aconteceu no dia 06 de setembro, menos de uma semana depois que cheguei. Ficamos um bom tempo em estado de sítio, sem poder sair do acampamento. Todos estavam com medo do que poderia acontecer - uma "gerra civil" entre Moribadougou e Beyla. Até hoje, mais de um mês depois do ocorrido, os carros da Rio Tinto estão proibídos de irem até Beyla.

O fato é que as relações sociais no interior da Guiné, e acredito que isso ocorra na África como um todo, ainda são muito tribais e pouco civilizadas. O uso da violência para alcançar objetivos, sejam eles quais forem, me lembrou as reações dos índios, dos traficantes e do MST no Brasil: grupos tão tribais e tão pouco civilizados quanto os habitantes de Beyla. Infelizmente.
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Um comentário:

Marina disse...

Nossa com seu comentário deu para entender direitinho o comportamento dos habitantes de Simandou...